quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Sombra




Ela, sentada na calçada. Ela,antes tão afoita, cai agora na inércia. A tristeza Lhe percorre o corpo, como veneno, e atinge cada fibra, cada canto da sua existência. Um veneno nada doce; um que amarga a alma e enrijece os sentimentos.Uma brisa morna sopra, envolve Seus cabelos. Mas Ela permanece inanimada, fria como mármore.


Uma nesga de sol Lhe banha a face. Porém nem todos os raios de luz poderiam despertá-La do seu estupor. Fora uma tola, enganara-Se novamente. Culpa Sua, somente Sua, por acreditar em algo bom. Bom até em demasia pra ser real. Acostumara-Se por tanto tempo a não esperar coisa alguma, e agora, sabe Deus o motivo, chegou a ter uma esperança de verdade. Por que desta vez?


Ele não virá. Ele não vem. Ele não veio.


Ingênua. Ingenuidade é para as fracas. Ela não é forte, mas fraca?, jamais. As pernas cansaram-se a alma exaustiu-se. Despiu os Louboutin, alcançou o meio fio. E ali permanece.


A luz Lhe alcança metade do rosto agora, Seu olho brilha ao sol. De repente, a sombra desenha uma silhueta, tão familiar, em frente a Ela. Imediatamente Ela calça os sapatos, estende a mão, levanta-Se do chão. O mármore transformara-Se novamente na mais bela escultura já talhada, agora, tão maleável. Ela tinha um sorriso que não caberia no mundo. O féu tornara-se açúcar.


Ela acreditou novamente. Porque a esperança é para as fortes.

Avesso


Nada mais está do jeito que algum dia foi. Tudo do avesso, o mundo de cabeça para baixo.. e meus pés... Meus pés já não encontram um chão para arriscar um passo. Todas as incertezas ao meu redor me impedem de continuar a caminhar.

As peças não se encaixam mais; nunca fui tomada por uma sensação tão grande de infirmeza. Sempre pensei que eu pudesse consertar tudo : o relógio que parara de funcionar, a boneca quebrada... Me deparo agora com a realidade que sempre ignorei existir; o caminho da negação tem me parecido ser o mais conveniente. Nem tudo pode ser reparado.

Percebo agora, que na vida, nós perdemos muitas coisas sim, e a maioria delas, permanentemente. Vejo o quão ineficaz é tentar resgatá-las ou prender-se inutilmente ao passado no qual elas estão.

Tento dar mais um passo, seguir em frente. Porém meu pés, tão receosos, recusam-se a prosseguir. Há algo que ainda me prende, que me obriga a permanecer estagnada. Devo consertar o que está arruinado, para só então seguir meu caminho? Até tentaria, mas valeria mesmo a pena? Lágrimas derramadas, dias mal vividos, angústias reprimidas e angústias divididas erroneamente. É o medo a minha âncora.

Quero, preciso. Esquecer o que passou. Mas é essa âncora que me prende ao cais, que não me permite deixar o passado com um rastro. Me transtorno com os passos que darei e com os que foram deixados pra trás. Sem déja-vu, sem certeza alguma, sigo no escuro. Talvez algum dia as luzes se acendam, mas, por ora, nada me resta a não ser trilhar este meu caminho.